“Às vezes é bom lembra de como era no começo. De como nunca faltava assunto, tudo era novo, a forma de se tratar, de cuidar do outro sem conhecer. De confiar em todos os sonhos de uma pessoa que você nunca viu antes, querer que todos se realizem e acreditar que sim, ela é uma pessoa boa. Também é bom pensar em como tudo foi construído, como cada bom dia te tirava o ar, e a ausência… bem, a ausência já machucava desde a primeira vez. É bom lembrar de como tudo surgia tão naturalmente, cada olhar, cada toque. Relembrar do beijo que tirou todo o seu ar e ao mesmo tempo te fez respirar o ar mais puro que já existiu. Aquele sabor, nem tão doce, nem tão salgado, simplesmente perfeito para vocês, ali naquele breve momento. O que seria? Canela? Café? Um toque de cereja? Um perfume amadeirado que sustentou todas as tuas carências e te fez querer buscar abrigo ali. O melhor de todos os cheiros. O olhar que, quando viu você, sorriu de volta. Que te quis por perto. Que te fez porto seguro, mesmo você também sendo apenas um barquinho à deriva de todo o maremoto. Sem falar no toque que fez nascer flores, árvores e vida em cada canto escuro que ninguém geralmente vê. Que te permitiu descansar um pouco sem a pesada armadura que você geralmente mostra para o mundo. Suas rachaduras também foram fechadas. Sua memória de tempos de guerra tornaram-se um jardim para descanso e esperança. É bom lembrar de como você construiu seus castelos, altos, belos, e deixou todos os medos ali, fazendo morada nas profundezas das masmorras e calabouços, pois, sim, todos os castelos têm seus lugares profundos e escuros, por mais que ninguém nunca os visite. É bom se sentir vivo ao pensar que um dia você viveu tudo aquilo. Que sentiu tudo o que sentiu. Que num espaço tão limitado de um abraço se sentiu infinito. Tocou as estrelas com os pés banhados pelas águas serenas e mornas do mar no fim da tarde. É bom relembrar que você já sentiu amor e se deixou amar. Faz bem saber que o amor, e só o amor, vai salvar a todos e mandar embora de vez todas as dores. Cuide. Deixe durar. Se por descrença você passou a acreditar que isso será sempre só um sonho, se permita viver o sonho.”